A celulite acomete em torno de 95% das mulheres, enquanto as estrias marcam o corpo de 40% a 70% da população adolescente e de até 90% das gestantes; estes problemas típicos femininos incomodam, mas podem ser evitados e suavizados

Em um país como o Brasil, que registra temperaturas amenas – ou bem altas, dependendo da região – durante quase todo o ano, é natural que a população leve a vida com o corpo mais exposto.

Seja em um passeio de fim de semana, uma festa com os amigos ou em um dia de praia, shorts, saias e biquínis fazem parte do figurino cotidiano das mulheres brasileiras.

Essa constante exposição traz um problema: celulites e estrias ficam mais em evidência e trazem incômodo, insatisfação e vergonha. O desconforto não deveria ser tão grande, já que são problemas extremamente comuns, principalmente dentro da população feminina.

Estimativas da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) apontam que a lipodistrofia ginoide, popularmente conhecida como celulite, acomete em torno de 95% das mulheres. Já as estrias têm uma prevalência que varia de 40% a 70% entre as adolescentes, chegando a 90% em gestantes. Ao contrário do que mostram as capas de revista e os perfis de “musas fitness” no Instragram, o padrão corporal feminino real, sem retoques e filtros, predispõe à formação de celulite e estrias.

O tecido gorduroso das mulheres é perpendicular à pele e às traves de sustentação que se ligam aos músculos. “A gordura que fica sob a pele se deposita em feixes verticais, os quais são separados por regiões de fibrose e este conjunto permanece conectado entre a pele e a musculatura sob a pele, formando o aspecto ‘casca de laranja’, característico da celulite”, complementa o clínico geral, Dr. Roberto Debski.

Já nos homens, as fibras são mais grossas e se ligam à musculatura de forma oblíqua. Dessa maneira, resistem à expansão em direção à pele e dirigem o tecido gorduroso para a profundidade, não deixando evidente as irregularidades da celulite. Por isso, o problema é muito mais comum em corpos femininos.

Por tratar-se de um processo natural, a celulite não é considerada uma doença, apesar de ser uma preocupação estética importante para a maioria das mulheres. “Ela tende a ocorrer nas áreas onde a gordura está sob a influência de um hormônio feminino conhecido como estrógeno, sendo nos quadris, coxas e nádegas; também pode ser observada nas mamas, parte inferior do abdome, braços e nuca”, detalha a dermatologista da SBD, Dra. Débora Ormond.

Já o processo que forma as estrias envolve o estiramento excessivo e prematuro da pele, levando a um rompimento das fibras elásticas e colágenas responsáveis pela sustentação e firmeza da pele, provocando o aparecimento de cicatrizes suaves. “Esse rompimento pode ser causado pela distensão da pele devido ao ganho excessivo e rápido de peso, à ação hormonal, ao crescimento rápido na puberdade, ao excesso de atividade física, à gravidez, ao uso de medicamentos corticoides e à obesidade”, enumera o Dr. Debski.

 

Genética ou estilo de vida?

 

Apesar da indústria da beleza investir pesado em pesquisas para criar fórmulas capazes de atenuar a celulite, a causa do problema ainda não é plenamente conhecida, de acordo com a Dra. Débora, embora existam inúmeras suposições não comprovadas cientificamente.

“Os fatores predisponentes parecem ser hereditários, tais como: sexo, etnia, biotipo corporal e distribuição de gordura. Existem ainda outros agravantes que acentuam a tendência genética, como problemas circulatórios e alterações hormonais, provocadas pelo uso de pílulas anticoncepcionais, por exemplo.”

Com relação ao estilo de vida, a má alimentação, em especial o consumo excessivo de açúcares e carboidratos, a tensão emocional, o sedentarismo e o excesso de toxinas, como álcool e cigarro, no organismo, contribuem para o aparecimento e piora da celulite. Também em relação às estrias, as causas ainda precisam ser mais bem estudadas.

Sabe-se que situações já citadas anteriormente, como crescimento rápido durante a puberdade, aumento excessivo dos músculos, obesidade, entre outras, facilitam o surgimento das cicatrizes, mas não porque algumas pessoas têm mais predisposição ao rompimento das fibras do que outras.

 

Efeitos da gravidez

 

Apesar da ciência ainda estar caminhando para desvendar as causas das celulites e estrias, um fato é incontestável: as marcas se agravam durante a gravidez.

Durante a gestação, é natural que ocorra um ganho de peso e, consequentemente, um acúmulo de gordura. Ao mesmo tempo, o aumento da produção do hormônio estrógeno causa alterações na distribuição de células de gordura pelo corpo. Isso obstrui o sistema linfático, responsável por eliminar as toxinas, células ruins e excesso de água.

Logo, há uma natural retenção de líquidos que agrava o aspecto de pele ondulada.

Ao longo dos nove meses, também ocorre o estiramento rápido da pele do abdômen que se prepara para dar espaço ao bebê em constante crescimento. Essa movimentação quebra as fibras de colágeno, elastina e fibronectina presentes nas camadas mais profundas da pele e que desempenham um papel fundamental na sustentação e elasticidade.

“Quando são submetidas ao alongamento contínuo, devido ao aumento dos hormônios e volume corporal, essas fibras não aguentam o repuxamento excessivo e se rompem, gerando as estrias.

Outros fatores, como aumento excessivo de peso, idade e predisposição genética, também contribuem para o surgimento das estrias na gravidez”, afirma a gerente de marketing Expanscience, Marina Lima. Além dos fatores naturais característicos de um período de intensa mudança corporal, o estilo de vida colabora com o agravamento da celulite e das estrias na gestação.

“Por isso, é importante manter a hidratação da pele, alimentação balanceada, atividade física e ingestão de bastante líquido para manter a saúde da pele durante toda a gravidez.

Os cuidados também devem ser intensificados ao fim da gestação, já que, no último trimestre, a pele terá maior alongamento devido ao ganho de peso da gestante e do bebê”, complementa Marina.

 

Soluções nas gôndolas

 

Dentro de um estilo de vida corrido, seguir à risca todos os passos de um estilo de vida saudável pode ser difícil.

Por isso, a indústria de cosméticos oferece uma série de produtos que ajudam a combater a celulite e a estria de maneira mais rápida. Para orientar de forma adequada as consumidoras que buscam essa solução, é preciso entender como os produtos agem no corpo.

De acordo com a dermatologista da Clínica Due, Dra. Cristiane Braga Kanashiro, os cremes anticelulite são formulados com substâncias que favorecem a circulação linfática, reduzindo a retenção de líquidos. “Podem possuir também ativos que aumentem o metabolismo das gorduras (lipólise) localizada”, explica.

Já os cremes antiestrias atuam no aumento da capacidade de hidratação cutânea, resultando em melhora da elasticidade e, desta forma, contribuindo para uma cicatrização mais adequada. Vale destacar que o resultado do tratamento das estrias é mais demorado e difícil de ser obtido, por isso, o ideal é que seja iniciado logo que as marcas surgirem, na fase em que são recentes e rosadas. Os tratamentos mais comuns são cremes com ácido retinoico, com ácido glicólico ou com vitamina C.

É importante que a consumidora tenha ciência de que esses tratamentos só apresentam resultados satisfatórios e duradouros quando associados a exercícios físicos e à dieta adequada. “Os hábitos de vida saudáveis são melhores do que qualquer creme. Alimentação equilibrada, ingestão adequada de água e fibras, atividade física e manutenção do peso”, destaca a Dra. Cristiane. Investir na prevenção também é uma atitude importante, que evita que a celulite e a estria se tornem muito evidentes e um incômodo na vida adulta.